A questão é que tem um monte de coisas que você não sabe. Na verdade, você sabe de muito pouco. Você vê a pessoa que eu sou lá fora, enfrentando o mundo todos os dias, como se fosse fácil. Você vê a piada que eu faço de mim mesma todas as vezes que as coisas vão mal, o sorriso que eu abro quando não tem mais jeito e os passos que eu dou em frente quando não sei mais pra onde fugir. Você enxerga a mulher forte que eu me tornei há anos atrás simplesmente porque eu não tive como ser outra coisa. E eu sei que você pensa que é só isso que eu sou e que os problemas parecem pura bobagem porque no fim das contas eu vou apenas dar um jeito e ir em frente.
O problema é que você não entende que eu não consigo te deixar chegar mais perto porque você pode ver, a qualquer momento, que aqui dentro as coisas são diferentes. Toda vez que eu te deixo entrar eu tenho medo que você, enfim, veja tudo que você não conhece de mim. Você vai ver que eu tenho medo quando tudo dá errado, que eu às vezes não tenho nenhuma vontade de sorrir e que em alguns momentos eu me sinto a pessoa mais impotente do mundo, que eu posso chorar à noite no silêncio das cobertas sempre que acho que não vou conseguir. Você vai ver que os problemas não são poucos, que a minha vida é uma bagunça e que a minha cabeça às vezes dá nós que demoram pra se desfazer. E eu tenho medo que você não goste dessa pessoa do jeito que você gosta da outra. Eu tenho medo de ser muito menos do que você espera e te decepcionar.
Mas mais do que tudo, eu tenho um medo danado de que mesmo assim você continue aqui, segure na minha mão e queira me salvar do mundo…
Somos encorajados a acreditar em contos de fada desde a infância. A bruxa má é sempre derrotada, o príncipe encantado sempre chega, a mocinha é sempre resgatada e vive feliz para sempre. Quando crescemos, os contos de fada continuam lá, em forma de livros ou filmes românticos onde tudo dá certo no final. O cara legal é sempre o cara mais legal, a garota é sempre descolada, bonita e inteligente, todo mundo tem sempre as melhores respostas pra tudo e as demonstrações de amor são sempre grandiosas em cenas apoteóticas. No final, tudo dá certo. Sempre. E por mais que a realidade que bata todos os dias na nossa porta nos diga o contrário, no fundo no fundo seguimos querendo acreditar que tudo isso é possível.
Confesso que acho lindo na tela e invariavelmente me pego suspirando no cinema, mas desde muito cedo me descobri uma pessoa mais realista. Nunca achei que príncipes encantados existiam e sei que em muitos casos a bruxa má vence sim, cest la vie.
Meus pais foram casados e passaram a vida toda um ao lado do outro. Sempre se respeitaram, tomavam todas as decisões juntos e, embora tivessem algumas discussões como todo casal, levantar a voz pra minha mãe era a maior ofensa que alguém poderia fazer ao meu pai. Tinham contas a pagar, três filhas pra educar e alimentar, terminavam o dia cansados e meu pai sempre implicava com o fato da minha mãe dormir na frente da tv mas reclamar com ele se desligasse porque ela acordava nesse exato momento e jurava que estava assistindo ao filme (que, é claro, já tinha terminado há horas…). Meu pai tinha manias insuportáveis, e até hoje tem, mas minha mãe sabia exatamente como lidar com elas. Não era um conto de fadas, mas eles aprenderam a equilibrar um ao outro nesse lugar louco que chamamos de mundo. Se amaram até o último dia de vida da minha mãe e quando ela se foi meu pai quase morreu junto. Tem uma música do Death Cab que diz “love is watching someone die” e eu acredito que seja realmente algo assim.
Não importa a baboseira que filmes água com açúcar e contos de fada da Disney nos empurrem pela goela a vida toda, minha idéia de conto de fadas vai ser sempre algo mais simples do que um Patrick Verona cantando “Can’t Take My Eyes Off You” pra mim enquanto desce as arquibancadas da escola… Meu “felizes para sempre” é estar com alguém que me respeite, me entenda, me ame mesmo durante a minha TPM e divida um pote de sorvete comigo assistindo a um filme num sábado à noite, sem querer estar em nenhum lugar que não aquele. Alguém que saiba que a vida lá fora é difícil, que os passarinhos não cantam na janela todas as manhãs e que a mocinha tem dias de fúria, mas que esteja ali pra segurar a minha mão quando as coisas derem errado. E elas dão, muitas vezes. Alguém que veja perfeição nos dias comuns.
Sem diálogos perfeitos e frases prontas, sem clichês, sem carruagens e pedidos de casamento grandiosos. Simples, apenas, como o amor deveria ser.
Ele sempre usa as palavras dela, o tempo todo. Escreve como ela escreveu pra ele, fala com a entonação dela, já roubou até uma ou outra piada boba… E isso a faz sorrir por dentro na mesma medida em que a deixa com uma raiva amarga presa na garganta. Ela pergunta em silêncio quem ele pensa que é pra usar suas exclamações e suas interrogações como se fossem dele?? E ele segue com isso, desse jeito solto e largado, como se a prendesse um pouquinho mais cada vez que soa como ela. Ela não reivindica nada, não se sente capaz. Diz pra si mesma que tudo não passa de uma coincidência sem importância, são apenas estranhos íntimos. Ligados por uma série de coisa alguma. Ela pensa nele pensando se ele pensa nela e sempre se diz que não. Até aquele momento em que o vê, mais uma vez, usando as palavras dela, falando com a sua entonação, sorrindo como ela sorri…
Eu tenho um monte de histórias que você não conhece… Todo um lado meu que é quase outra pessoa, que tem um monte de coisas legais pra contar e dividir, que tem umas idéias incríveis e uns planos loucos que um dia vão dar certo, um lado que é bobo e feliz com quase nada, que é quase ingênuo e ao mesmo tempo cheio de sabedoria e de uma série de coisas vividas que você talvez nem imagine… sabe? Que pergunta, é claro que você não sabe porque eu nunca te deixo ver isso.
E é estranho porque você é a pessoa que eu mais queria que enxergasse tudo isso, é com você que eu queria dividir todas as coisas que passam pela minha cabeça, as boas, aquelas que valem a pena apesar de qualquer coisa. E eu nunca consigo, eu fujo e troco as falas mesmo sem perceber e quando me dou conta já estou tão longe de você, tão longe e só te deixei a parte ruim, uma que quase não é minha, que eu guardo só pra quando você chega perto de mim. Eu te afasto e tudo que eu faço é pra você não gostar de mim, mas você gosta, você continua gostando mesmo com tudo, mesmo sendo essa meia pessoa que eu sou pra você, mesmo com todas as verdades que eu digo e com tudo que eu te aponto e com tudo que eu apronto.
E quando você vai embora eu penso em tudo que eu queria dizer de verdade e por algum motivo eu não consigo, e eu me arrependo e eu quero consertar e eu juro que da próxima vez eu vou ser diferente e eu faço tudo errado de novo.
Eu sei que um dia, eu sei que muito em breve você vai se cansar da minha indiferença, eu sei que você vai desistir de tentar e eu sei que você vai finalmente achar que não vale mais a pena. Eu sei.
O que eu não sei é porque eu não consigo ser o que eu queria ser pra você. E eu não sei em que momento as palavras se cruzam tão tortas na minha cabeça pra saírem nessa rajada de impropérios e devaneios e eu não sei porque eu te ofendo tanto e te aponto tanto pra tudo que você deveria ser quando tudo que eu quero é que você seja exatamente o que você é pra mim.
Eu não vou te pedir pra entender. Nem vou te pedir pra esperar. E quando você me disser que vai embora eu vou simplesmente dizer pra você ir e sorrir e fazer parecer que não faz diferença. Eu vou. E vou me quebrar inteira por dentro um tempo depois pensando em tudo isso. Pra logo depois seguir em frente e me arrepender disso um século depois ou talvez nunca.
No fim das contas, eu te quero feliz e sempre penso que você merece alguma coisa bem melhor do que eu sou pra você. Você merece o que eu só consigo ser quando você não está aqui…
It’s not that she walked away, her world got smaller. All the usual places, the same destinations, only something’s changed.
It’s not that she wasn’t rewarded with pomegranate afternoons of Mingus, Chet Baker and chess.
It’s not stampeding fortune or prim affectations.She’s off on her own and she knows. Now is greater than the whole of the past, is greater, and now she knows.
She just wants to be somewhere. She just wants to be.
Música do dia
There’s a sadness, just grinding in my bones, a twisted trap down which I’m forced to go.
I need the hand of friendship to steady up my heart.
Casa de ferreiro…
Eu sou uma pessoa extremamente observadora. E tenho uma capacidade quase inacreditável de perceber, pescar e entender situações e histórias, por mais complexas que sejam, de um ou dois pequenos gestos ou momentos. Quase como se eu pudesse ler pessoas. Do tipo que se eu fosse um X-Men esse certamente seria o meu poder, sabe? Eu saco, entendo, analiso e imediatamente sei exatamente o que aquela pessoa tem que fazer pra que aquilo dê certo.
Uma das minhas melhores amigas me diz há anos que eu deveria ser personal coach - segundo ela eu sou perfeita pra isso e faria fortuna. Já ouvi dela inúmeras vezes que um dos meus maiores talentos é dizer às pessoas o que devem fazer com suas vidas. E olha, ela até que tem razão, eu sou realmente boa nisso! Se você tem um problema, fale comigo. Trago a solução amada e acerto sua vida em três dias (ou menos).
Queria que fosse tão simples fazer o mesmo com a minha…
I wish we could open our eyes to see in all directions at the same time…
Glad I have the scrapes to prove. Prove it was me who fell.
Quantas vezes ela tinha se feito a mesma pergunta, já nem lembrava mais. Não era tão estranho pra ela, afinal, pensava realmente nesse assunto muitas e muitas vezes. A questão naquela tarde, o que a tomou de surpresa foi o fato de pela primeira vez a resposta ter vindo diferente… A primeira vez nesses dois anos em que via as coisas de outro jeito e achava que de verdade, podia finalmente ser diferente. Tudo. Diferente.
Guardou aquele pensamento, apertou os olhos com força e abriu devagar, tentando guardar todos os detalhes daquela rua, o rosto das pessoas que passavam por ela lentamente, como numa projeção antiga. Fechou tudo naquela gavetinha mais importante da mente e decidiu que pensaria nisso novamente, à noite, com calma e sozinha.
Mas ela entendeu que, não importava mais o que viesse depois daquela tarde, tudo tinha mudado. De vez.
E sempre que der vão te dizer pra nem tentar, que já é hora de crescer e de parar de usar as roupas de sempre…
-Quando é que vocês dois vão casar?
-A gente escolheu se respeitar, obrigado por perguntar.
De umas três semanas pra cá, o mundo resolveu que eu preciso aprender uma série de coisas que, supostamente, são essenciais pra minha existência, embora eu tenha vivido - muito bem, diga-se de passagem - as últimas três décadas sem conhecimento algum de nada disso… E eu ando numa fase em que acho tudo extremamente divertido, assim, tenho me deixado levar. Conselhos que eu não pedi, lições que eu não tava nem aí pra aprender e atitudes que me declaram as mais apropriadas, mesmo eu jamais querendo me adequar ao que quer que seja…
Quando até seu ex marido resolve te aconselhar a como agir, você começa a pensar se o problema é mesmo contigo ou com aquilo que as pessoas esperam ser o comportamento padrão. Bom, acho que eu nunca estive mesmo dentro de padrão algum.
Me coloquei livre e aberta, como cobaia quase voluntária a todas essas novidades. Partindo-se do pressuposto que são coisas que importam mais aos que te cercam do que a você mesma, no fim das contas não há nada a perder. Meu celular nas últimas semanas foi entregue prontamente todas as vezes que me foi pedido, tanto pra me impedir de mandar mensagens que eu queria mandar como para enviar torpedos em meu nome, seguindo a cartilha que meus “tutores” resolveram que deveria ser adotada. Fico ouvindo o resultado de tudo isso como se se tratasse da vida de outra pessoa e ando me divertindo bastante com isso. Vou a encontros que eu não iria por minha vontade, descubro conversas que “eu” tive com pessoas que eu sequer falaria depois de situações específicas, enfim, ando sendo uma versão de mim escrita em várias mãos… por um bando de gente menos eu.
Não me julguem por isso. Tenho achado a experiência válida e um tanto libertadora até. Enquanto isso fico aqui, esperando que o coração bata por alguma coisa que me diga algo, o suficiente pra voltar a me importar.


